| O evangelista S. Lucas nos relata que, “quando se completaram oito dias para a circuncisão do menino, foi-lhe dado o nome de Jesus” (Lc 2,21). Por isso a Liturgia da Igreja dedica 8 dias de intensa celebração do mistério do nascimento de Jesus, coroando tudo isto com a Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, no dia 1º de janeiro. Afinal, Maria, com o seu “fiat” (faça-se), teve um papel fundamental no mistério da Encarnação (o Filho de Deus que assume a natureza humana – Jo 1,1ss).
É justo chamar Maria de “Mãe de Deus”? Certamente o Filho de Deus (ou “Verbo”) existia antes de todos os tempos, junto com o Pai e o Espírito; todavia, como diz S. Paulo, “quando chegou a plenitude do tempo, Deus [Pai] enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4); vê-se que, segundo a linguagem do Novo Testamento, não há nenhum problema em falar que o Filho de Deus nasceu de Maria. Já Isabel (ou Elisabete), movida pelo Espírito Santo (Lc 1,41), havia reconhecido Maria, sua parenta, como “mãe do meu Senhor” (Lc 1,43) – ou seja, mãe de Deus, pois “Senhor” (Dóminus, Kýrios) é utilizado no meio do seu povo para se referir a Deus (Yahweh, Adonai), como encontramos inclusive nos lábios de Maria (Lc 1,38.46).
Os cristãos vão, pouco a pouco, reconhecer Maria não apenas como Mãe de Jesus mas sobretudo como Mãe de Deus, não enquanto Deus sem mais, mas enquanto Deus feito homem, ou seja mãe do Filho de Deus que assume a natureza humana – corpo e alma – em sua única Pessoa divina. É errado pensar e dizer que alguém é mãe apenas do corpo de seu filho, ou da sua alma (que, de fato, é criada por Deus no momento da concepção), ou da sua natureza humana; ao contrário, alguém é mãe do seu filho, enquanto ser existente por completo (cf. Sto. Tomás, S. Th. III, 35, 1), pelo fato de o ter gerado em seu útero. De modo semelhante, Maria pode ser chamada como Mãe de Deus pois gerou em seu ventre a natureza humana de Jesus, Filho de Deus, sem a participação de gameta masculino, pois concebeu por obra do Espírito (Lc 1,35).
S. Inácio de Antioquia, bispo e mártir, que morreu pouco depois do final do século I d.C. e que provavelmente foi discípulo dos apóstolos, escreveu na sua Carta aos Efésios: “Deus Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu do seio de Maria, segundo a dispensação de Deus, da semente de Davi, pelo poder do Espírito” (Ad Eph. 18,2). S. Irineu de Lião (+202) fala também bastante sobre este mistério: “Que Ele [Cristo] tinha em si mesmo, diferentemente de todos os demais, aquele nascimento preeminente que vem do Pai Altíssimo, e também passou por aquela preeminente geração da Virgem, ambos fatos dão testemunho dEle na Sagrada Escritura” (Adv. haer. 3,19,2).
Numa das mais primitivas profissões de fé cristã (Credo), segundo a fórmula que se usava nos tempos de Hipólito de Roma (c. 215 d.C.), se perguntava aos catecúmenos (os que se preparam para o batismo): “Credes em Jesus Cristo, Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria...?” (Trad. apost. 21,15). Na mais antiga oração mariana que se tem conhecimento (achada num fragmento de papiro no Egito) aparece a expressão grega theotókos (no latim deipára, “aquela que dá à luz Deus”), que comumente é traduzida como “mãe de Deus”: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus (theotókos)”. Para alguns estudiosos, Alexandre de Alexandria teria sido o primeiro autor a empregar a expressão “mãe de Deus” em um escrito, por volta do ano 320 (Hist. Eccl. I,4,54). Nem mesmo Martinho Lutero, pai do protestantismo, hesitava em chamar Maria de “a Mãe de Deus” (Weimar, t. 11, p. 314; t. 7, p. 545), ou, num sermão de 1546, de “a santa Mãe de Deus” (id., t. 51, pp. 128s).
Como uma resposta às discussões a respeito da humanidade e divindade de Jesus Cristo, o Concílio de Éfeso (ano 431) recorre à fórmula “Maria é mãe de Deus”. Os teólogos continuam as discussões, até que, finalmente, no ano de 451, o Concílio de Calcedônia reafirma a doutrina de Éfeso: “O Filho que, antes dos séculos, foi gerado pelo Pai segundo a Divindade, nos últimos tempos Ele mesmo, por causa de nós e da nossa salvação, nasceu de Maria Virgem, Mãe de Deus segundo a natureza humana” (Dz 301).
Santa Mãe de Deus: rogai por nós!
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